O experimento clínico que demonstrou uma estreita relação com a Depressão

O desamparo aprendido foi um modelo proposto por Seligman através de pesquisas que começaram a ser realizadas a partir de 1965. Desde então, este modelo tem sido amplamente estudado por Seligman e Maier (1967).

O desamparo aprendido, definição dada pela análise do comportamento, tem sido relacionado ao fenômeno da depressão e trata-se de ser uma dificuldade em aprender uma relação operante decorrente de exposição prévia a eventos aversivos incontroláveis.

Desamparo Aprendido é a interferência da exposição prévia a eventos aversivos incontroláveis, na aprendizagem futura, quando os eventos podem ser controláveis. Esse efeito de interferência ocorre porque os organismos, ao passarem pela experiência com eventos incontroláveis, aprendem que não há relação entre o que fazem e as consequências ambientais do que foi feito. (CAPELARI, 2002, p.26)

Seligman traçou seu experimento formando três grupos: controlável, incontrolável e neutro e para seu experimento, que chamou de triádico, utilizou cães. Submeteu o primeiro grupo (controlável) a um estímulo aversivo (choques) de baixa intensidade. Enquanto no primeiro grupo era possível interromper o estímulo aversivo por meio de um dispositivo que desligava o sistema que provocava os choques, no segundo grupo, onde foram expostos em pares, a condição era de incontrolabilidade, ou seja, o segundo grupo receberia os mesmos estímulos aversivos que no primeiro grupo, porém qualquer que fosse sua resposta ao estímulo aversivo, nada acontecia, o choque só cessaria quando o cão do primeiro grupo empurrasse o painel com o focinho. O terceiro grupo não receberia nenhum tipo de choque. Posteriormente, os três grupos foram colocados em uma caixa com dois compartimentos separados por uma divisória baixa, possibilitando a passagem dos dois grupos para o outro lado do compartimento.

Novamente, foram submetidos aos estímulos aversivos. O grupo controlável pulou as divisórias e conseguiu fugir dos choques. O grupo neutro  mesmo sem ter recebido os choques na primeira parte do experimento, também descobriu que era possível pular. O grupo que não tinha o controle dos choques no primeiro experimento, nada fez para se livrar dos choques, logo desistiu e deitou-se.

Nota-se, contudo, que os três grupos foram expostos a uma contingência de fuga, sendo possível verificar o desamparo aprendido, quando o grupo que não tinha controle dos estímulos apresentaram dificuldades de aprendizagem, quando comparados aos outros dois grupos.  Mesmo quando o grupo que não tinha controle passou a ter o controle, agiu como se não tivesse, após a exposição prévia do estímulo incontrolável.

Seligman não tinha a finalidade de traçar um modelo para a depressão, porém percebeu em seu experimento, um repertório comportamental semelhante ao de uma pessoa deprimida. Assim como no modelo do desamparo aprendido, a pessoa deprimida aprende que seus comportamentos não gerarão resultado algum e por isso não os emite. As mudanças no ambiente leva a pessoa a apresentar uma baixa frequência de respostas comportamentais, sobretudo daquelas que gerariam reforçadores. Em desamparo, o indivíduo pode não receber mais reforçamento para respostas que antes produziam tais reforçamentos e, então, acaba por emitir poucos comportamentos, ocasionando em menos reforçadores.

A compreensão da depressão pelo viés deste modelo traz o entendimento de que não é apenas a ausência de reforçadores que estaria na etiologia da depressão, mas a ausência de controlabilidade e de antever esses reforçadores.

FERREIRA C D, TOURINHO Z E. Desamparo Aprendido e Incontrolabilidade: Relevância para uma Abordagem Analítico-Comportamental da Depressão. Psicologia teoria e pesquisa Abr-jun 2013 vol. 29 n. 2 pp.211-219; Brasília 2012.

CAPELARI, Angélica. Modelos Animais de Psicopatologia: Depressão. In: GUILHARDI, Hélio José et al (org.). Sobre Comportamento Cognição. Vol. 10. Santo André-SP:ESETec, 2002. cap.3, p.24-28.

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