O fascínio de ser casal: Da Paixão ao Amor Maduro

Pode-se dizer que o encantamento e a dificuldade encontrada no casamento dizem respeito a um questionamento lógico: Como ser dois sendo um? Ou como ser um sendo dois?

Isso não significa dizer que ambos perderão suas identidades ao se unirem, mas certamente entrarão na vida um do outro de modo íntimo e profundo. Sendo assim, o casamento foi idealizado para alcançar essa necessidade de intimidade e de amor.

Fato é que o casal precisará conviver com duas individualidades e se conectar a uma conjugalidade, ou compromisso matrimonial, que dominará e norteará o casamento entre ambos. Desta forma, identifica-se na existência do casamento dois indivíduos com desejos, percepções de mundo, histórias e projetos de vida diferentes, mas que relacionam-se e convivem com uma conjugalidade, um desejo, uma história, um projeto de vida de casal,uma identidade conjugal. Em suma, duas identidades individuais que juntas formam uma terceira: A identidade do casal.

Mas por que após o casamento muitos casais aparentemente não conseguem manter vivo o amor? O que acontece com o amor após o casamento? Para falar sobre o amor, é necessário falar do que antecede o amor. E o que antecede a experiência de amar é a experiência de apaixonar-se.

A paixão acontece quando menos se espera. Isso significa dizer que apaixonar-se por alguém não é algo premeditado, e tão pouco nasce de uma escolha consciente.  É de natureza instintiva. Nesta fase, criam-se idealizações acerca do outro. Idealiza-se aquilo que se quer que o outro seja, impedindo a percepção das características reais do outro.

Trata-se do estágio inicial de um possível relacionamento futuro. Neste estágio os defeitos do outro não são percebidos e a pessoa, objeto da paixão da outra, parece ser a exata exposição de beleza, perfeição e excelência. Um fica emocionalmente deslumbrado e obcecado  pelo outro. Dorme-se e acorda-se pensando naquela pessoa. Por vezes somos levados a crer que a experiência da paixão durará por toda a vida.  Alguns estudiosos da área concluíram que o tempo de extensão da paixão dura em torno de dois anos. Não existe ainda um consenso entre estes estudiosos, porém há os que afirmam que a durabilidade pode chegar até cinco anos.

De repente, como num passe de mágica construímos a consciência de que fomos iludidos, chega o momento em que os nossos olhos se abrem e conseguimos então observar com clareza os defeitos do outro. É a fase das descobertas! Descobrimos, por exemplo, que determinadas características da personalidade da pessoa são extremamente irritantes, e que ela  exibe padrões de comportamento detestáveis.

O fenômeno da paixão não permitiu que estas características pudessem ser notadas, mas elas sempre estiveram ali, fazendo parte do indivíduo. Essa descoberta gera dúvidas e incertezas acerca do que é o amor. Esse é o momento onde geralmente as pessoas se perguntam o que é o amor verdadeiro? Todos nós criamos o falso conceito de que a paixão é eterna. Essa sem dúvidas é a principal falha na comunicação. A paixão é isso: um pico emocional que chega ao fim.

O Amor nasce com base numa escolha consciente, ou seja, é o ato de decidir amar a outra pessoa, apesar dos defeitos. O Amor maduro é incapaz de sofrer alterações por causa dos defeitos do outro.

O amor maduro é de natureza emocional e não é obsessivo. É o amor maduro que permite preservar a própria integridade e individualidade. No amor maduro há o desejo de preocupar-se com o bem estar da pessoa amada, é onde nasce o entendimento mútuo que se estabelece entre ambos, é o provimento de valorização, respeito e cuidado com o outro. Diferentemente da paixão que, por ser um sentimento egocêntrico, está ligada à expressão das necessidades e desejos, onde uma separação poderia ser sentida como um vazio, a ponto de gerar ansiedade e provocar desespero. Quando acreditamos dentro de um relacionamento que estamos sendo preenchidos pela presença da pessoa amada, certamente construiremos uma relação difícil. Haverá a tentativa de segurar o outro fortemente para que ele não escape. Portanto, a nítida diferença observada nesses dois sentimentos, é que no amor maduro, puro e genuíno, precisamos do outro porque o amamos. Na paixão ou amor romântico, amamos o outro porque precisamos dele.

Manter vivo o amor implica, entre outras coisas, na compreensão de que a paixão tem um tempo de validade e que o amor é um ato de escolha consciente que procede da paixão. Quem sabe esso não seja um dos motivadores do fim do “encantamento conjugal”.

Thaiane Soares Palhares de Lima

%d bloggers like this: